Workshop Teses de Defesa: Teses contra o Auto de Infração e o Ato SancionadorInscreva-se
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Infrações Administrativas Ambientais

Insignificância na infração ambiental: a atipicidade material e a proporcionalidade contra a multa

Quando a lesão ambiental é inexpressiva, a punição administrativa viola a proporcionalidade. Veja como a insignificância e a atipicidade material entram na defesa do auto de infração, com os quatro vetores do STF e os limites da tese.

Cláudio Farenzena30 de junho de 2026 12 min de leitura

Existe insignificância na infração ambiental administrativa?

Sim. A insignificância tem lugar no Direito Administrativo Sancionador. Quando a lesão ao bem ambiental é inexpressiva, a punição viola a proporcionalidade e a tipicidade material se afasta. A tese se apoia na intervenção mínima e na proporcionalidade do art. 2º da Lei 9.784/99, com os limites da reincidência e das áreas de especial proteção.

A defesa parte de uma comparação simples. Se a conduta de lesão ínfima não chega a ser crime, por ausência de ofensa material ao meio ambiente, com maior razão não sustenta a sanção administrativa, que é resposta estatal de mesma natureza repressiva. O argumento transporta para o auto de infração a lógica da bagatela.

A transposição ainda está em construção nos tribunais. A maioria dos julgados de insignificância é penal, e a sua aplicação direta para anular o auto de infração depende de fundamentação na proporcionalidade administrativa. Por isso a tese combina a atipicidade material do penal com o controle de proporcionalidade já aceito na via administrativa.

Quais são os quatro vetores da insignificância?

O Supremo Tribunal Federal, no Habeas Corpus 84.412/SP, fixou quatro vetores para reconhecer a insignificância. São a mínima ofensividade da conduta, a ausência de periculosidade social da ação, o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e a inexpressividade da lesão ao bem jurídico tutelado.

Esses vetores nasceram no Direito Penal, mas exprimem um juízo de proporcionalidade que serve a qualquer punição estatal. A sanção administrativa também é resposta a um ilícito, e a sua imposição diante de lesão inexpressiva contraria a proporcionalidade que o art. 2º da Lei 9.784/99 impõe ao processo administrativo.

A defesa do auto de infração deve demonstrar a presença dos quatro vetores no caso concreto. Não basta alegar que o dano foi pequeno; é preciso mostrar a baixa ofensividade, a falta de periculosidade, a reprovabilidade reduzida e a lesão ínfima, com a prova de que a área não é de especial proteção.

Como a insignificância penal se transpõe ao auto de infração?

A ponte se faz pela proporcionalidade. O art. 2º da Lei 9.784/99 obriga a Administração a observar a adequação entre meios e fins, vedando a sanção em medida superior à necessária. Multa elevada por lesão inexpressiva é desproporcional, e a desproporção autoriza o controle judicial do ato.

A atipicidade material completa o raciocínio. Se a conduta não ofende de modo relevante o bem ambiental, falta o substrato que justifica a punição, tanto no crime quanto na infração. A insignificância funciona, então, como causa de exclusão da própria infração, e não como simples atenuante de dosimetria.

O ponto exige honestidade técnica. A tese da atipicidade material no sancionador administrativo ainda é construção doutrinária, sem julgado que anule, por insignificância, um auto de infração ambiental. O que os tribunais já aceitam, e com firmeza, é a redução ou o afastamento de sanções desproporcionais.

Os quatro vetores da insignificância aplicados à infração ambiental
Vetor (HC 84.412/SP)O que demonstrar na defesaLimite que afasta a tese
Mínima ofensividadeConduta de impacto reduzido sobre o bem ambientalDano expressivo ou cumulativo
Ausência de periculosidade socialFato isolado, sem potencial de desequilíbrioAtividade habitual ou em escala comercial
Reduzida reprovabilidadeSubsistência, boa-fé ou ausência de doloReincidência e maus-tratos
Inexpressividade da lesãoÁrea ínfima e fora de espaço protegidoUnidade de conservação ou área de preservação permanente

A tabela serve de roteiro para a impugnação. Cada vetor presente reforça a atipicidade material; cada limite presente a enfraquece. A defesa que percorre as quatro linhas, com prova documental e fotográfica, separa o caso de bagatela do caso de dano relevante, e foca o argumento onde ele tem sustentação.

A proporcionalidade pode reduzir ou anular a multa?

Pode, e é o terreno mais seguro da tese. O Superior Tribunal de Justiça admite que o Judiciário adeque a multa exorbitante, sem invadir o mérito administrativo, quando violadas a razoabilidade e a proporcionalidade. O controle recai sobre a legalidade do ato, e não sobre a conveniência da Administração.

No AgRg no AREsp 568.283/SC, de relatoria do Ministro Humberto Martins, julgado em 14/10/2014, a Segunda Turma assentou que os atos discricionários devem guardar os parâmetros da razoabilidade e da proporcionalidade, e que, quando exorbitantes, permitem ao Poder Judiciário adequá-los. A multa ambiental excessiva entra nesse controle.

No REsp 1.766.116/RS, de relatoria do Ministro Sérgio Kukina, julgado em 06/04/2021, a Primeira Turma reafirmou que não há invasão do mérito quando o magistrado reduz o valor da multa com fulcro na razoabilidade e na proporcionalidade. O precedente, embora de sanção regulatória, transfere-se à multa ambiental inexpressiva.

O Tribunal Regional Federal da 6ª Região, na Apelação Cível 1006366-02.2022.4.01.3816/MG, publicada em 18/06/2025, afastou o cancelamento de licença e o embargo por desproporção, mantendo apenas a multa. Reconheceu que a ausência de má-fé e de risco concreto ao meio ambiente tornava as sanções mais gravosas desproporcionais ao caso.

O perdão judicial do art. 29, §2º, se estende à multa?

O art. 29, §2º, da Lei 9.605/98 permite ao juiz deixar de aplicar a pena na guarda doméstica de espécime silvestre não ameaçado. Se a lei tolera o perdão no crime, a mesma lógica de mínima reprovabilidade deve alcançar a multa administrativa pela conduta equivalente, sob pena de incoerência do sistema sancionador.

O art. 24, §4º, do Decreto 6.514/08 dá base normativa a essa extensão na esfera administrativa. A defesa sustenta que pesca sem captura, uso de petrecho único ou pequena quantidade de espécie comum são situações em que a punição pecuniária perde justificativa, por espelharem o mesmo juízo de baixa lesividade.

O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, na Apelação Criminal 5022130-74.2023.8.21.0019, de relatoria da Desembargadora Betina Meinhardt Ronchetti, julgada em 09/03/2026, reconheceu a atipicidade material na guarda de dez aves não ameaçadas, por réu primário, sem maus-tratos. Ligou a bagatela ao perdão judicial do art. 29, §2º, como sinal de baixa reprovabilidade.

Quais são os limites da tese da insignificância?

A insignificância não socorre todos os casos. A reincidência afasta a tese, porque revela habitualidade e eleva a reprovabilidade. A lesão a unidade de conservação ou a área de preservação permanente também a exclui, pois atinge bem jurídico de especial proteção, ainda que a área degradada seja pequena.

O Tribunal de Justiça de Tocantins, na Apelação Criminal 0015040-40.2024.8.27.2722, de relatoria da Desembargadora Ana Paula Brandão Brasil, julgada em 06/05/2026, afastou a insignificância de represa que superava um hectare em área de preservação permanente. Considerou a conduta materialmente típica por atingir ecossistema sensível e bem jurídico indisponível.

O Tribunal Regional Federal da 4ª Região, na Apelação Cível 5000130-85.2017.4.04.7201/SC, publicada em 19/02/2025, registrou que pequena extensão degradada não é sinônimo de baixo impacto ambiental quando se trata de intervenção em área de preservação permanente. É o argumento padrão do órgão, que a defesa precisa enfrentar com prova de baixa lesividade.

A reincidência somada a maus-tratos sela o destino da tese. O Tribunal Regional Federal da 3ª Região, na Apelação Criminal 5007632-19.2021.4.03.6181, publicada em 11/04/2025, afastou a bagatela em caso de onze aves, três delas ameaçadas, com maus-tratos e reincidência. A tese exige réu primário, área ínfima e ausência de crueldade.

Como a tese entra na defesa do auto de infração?

A insignificância raramente caminha sozinha. Ela se soma às excludentes que rompem o nexo causal e à discussão sobre o ônus da prova no auto de infração, porque cabe ao órgão demonstrar a lesão relevante, e não ao autuado provar que ela foi ínfima.

A ausência de prova técnica reforça o argumento. Sem laudo que dimensione o dano, o órgão não tem como afirmar a lesão relevante, e a tese se conecta ao auto de infração sem laudo técnico. A insignificância, nesse ponto, dialoga com a própria nulidade do auto por falta de motivação técnica.

A defesa deve, ainda, organizar o tempo. Enquanto sustenta a bagatela e a desproporção, controla os marcos da prescrição do auto de infração ambiental, porque o decurso do prazo extingue a pretensão punitiva independentemente do mérito. A tese da insignificância convive com as teses processuais, sem prejudicá-las.

O que diz a jurisprudência sobre lesão inexpressiva no ambiental?

O Tribunal Regional Federal da 1ª Região, na Apelação Criminal 0017106-51.2016.4.01.3200, publicada em 26/07/2023, reconheceu a insignificância em desmatamento de área para cultura de subsistência. Tratou a conduta como formalmente típica, mas materialmente atípica, e aplicou a insignificância como causa supralegal de exclusão da tipicidade.

O Superior Tribunal de Justiça, no AgRg no REsp 2.137.597/SC, publicado em 11/10/2024, reconheceu a mínima ofensividade na pesca em que o agente foi flagrado apenas com vara e molinete, sem apreensão de pescado. Advertiu, porém, que a mera ausência de apreensão não afasta a tipicidade por si só, sendo a soma das circunstâncias o que decide.

Esses julgados, embora penais, fixam o método que a defesa transporta para o auto de infração. Quando a conduta não passa de bagatela na esfera criminal, a sanção administrativa pela mesma lesão inexpressiva fica sem justificativa proporcional, e o controle judicial pode reduzir ou afastar a penalidade excessiva.

Quais erros enfraquecem a tese da insignificância?

O primeiro erro é confundir insignificância com simples pedido de redução de multa. A bagatela ataca a própria existência da infração pela atipicidade material; a redução discute apenas o valor. Misturar os planos enfraquece os dois, e o ideal é deduzir a atipicidade como tese principal e a desproporção como pedido sucessivo.

O segundo erro é ignorar os limites. Sustentar bagatela em caso de reincidência, de área de preservação permanente ou de espécie ameaçada entrega ao órgão a refutação pronta. A defesa precisa reservar a tese para o réu primário, a área ínfima e a conduta sem crueldade, onde ela tem chance real.

O terceiro erro é alegar sem prova. A insignificância depende de demonstração concreta da baixa lesividade, com fotografias, medições e laudo, quando possível. Afirmar que o dano foi pequeno, sem prova, devolve ao órgão a presunção de legitimidade do auto, que a defesa deveria estar atacando.

Checklist para sustentar a insignificância na infração ambiental

  1. Confirme que a conduta atinge os quatro vetores do HC 84.412/SP, com prova de cada um.
  2. Verifique se o autuado é primário e se a área está fora de unidade de conservação ou de preservação permanente.
  3. Deduza a atipicidade material como tese principal e a desproporção da multa como pedido sucessivo.
  4. Invoque o art. 2º da Lei 9.784/99 e a jurisprudência do STJ sobre adequação da multa exorbitante.
  5. Some o art. 29, §2º, da Lei 9.605/98 e o art. 24, §4º, do Decreto 6.514/08 para a extensão do perdão à multa.
  6. Controle, em paralelo, a prescrição e a falta de laudo técnico, sem abandonar as teses processuais.

Perguntas frequentes

A insignificância está prevista em lei para a infração administrativa?

Não há previsão expressa. A tese decorre da intervenção mínima e da proporcionalidade do art. 2º da Lei 9.784/99, com a atipicidade material construída pela jurisprudência penal. Por isso é tese em construção no sancionador administrativo, sustentada pela desproporção entre lesão ínfima e punição.

Quais são os quatro vetores da insignificância?

São a mínima ofensividade da conduta, a ausência de periculosidade social da ação, o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e a inexpressividade da lesão ao bem jurídico, fixados pelo STF no HC 84.412/SP. A defesa precisa demonstrar a presença dos quatro no caso concreto.

A insignificância vale para qualquer infração ambiental?

Não. A reincidência, a lesão a unidade de conservação ou a área de preservação permanente e a presença de maus-tratos ou de espécie ameaçada afastam a tese. Ela se reserva ao réu primário, à área ínfima e à conduta de baixa reprovabilidade, sem crueldade.

O perdão judicial penal alcança a multa administrativa?

É a tese da defesa. Se o art. 29, §2º, da Lei 9.605/98 permite o perdão no crime de guarda de espécime não ameaçado, a mesma baixa reprovabilidade deve afastar a multa pela conduta equivalente, com base no art. 24, §4º, do Decreto 6.514/08. A questão ainda se firma nos tribunais.

O Judiciário pode reduzir a multa ambiental desproporcional?

Pode. O STJ admite a adequação da multa exorbitante pela razoabilidade e pela proporcionalidade, sem invadir o mérito administrativo, no controle de legalidade do ato. É o caminho mais seguro quando a atipicidade material não é acolhida, e preserva o pedido sucessivo de redução.

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A formação ensina a separar a atipicidade material da simples redução de multa, e a deduzir cada uma no lugar certo da impugnação. O aluno aprende a percorrer os quatro vetores do HC 84.412/SP com prova, e a reconhecer quando a reincidência ou a área protegida inviabilizam a bagatela.

O curso reúne a jurisprudência de proporcionalidade que sustenta a tese, do AgRg no AREsp 568.283/SC ao REsp 1.766.116/RS e ao caso do TRF da 6ª Região, sempre lida pela perspectiva da defesa. O foco é dar ao advogado o repertório para reduzir ou anular a multa exorbitante por lesão inexpressiva.

Há, ainda, o encadeamento da insignificância com as demais teses transversais, da prescrição ao ônus da prova e à falta de laudo técnico, com checklist de impugnação. A proposta é sair da aula sabendo montar a defesa do auto por inteiro. Conheça o curso Infrações Administrativas Ambientais Comentadas.

Conclusão

A insignificância no sancionador administrativo nasce de uma incoerência que a defesa explora. Se o sistema tolera o perdão e a bagatela no crime, não faz sentido punir, com multa pesada, a lesão ambiental inexpressiva. A proporcionalidade do art. 2º da Lei 9.784/99 é o instrumento que corrige esse excesso.

A tese tem dois planos, e a defesa precisa manejá-los com clareza. A atipicidade material ataca a existência da infração e ainda se firma nos tribunais; a desproporção da multa, já consolidada, permite a redução ou o afastamento da sanção excessiva. Deduzir os dois, na ordem certa, dá robustez à impugnação.

Os limites são tão importantes quanto a tese. Reincidência, unidade de conservação, área de preservação permanente, maus-tratos e espécie ameaçada afastam a bagatela. Reconhecer esses limites evita o desgaste de sustentar a insignificância onde ela não tem chance, e concentra o esforço onde a lesão é realmente ínfima.

O domínio dessa matéria torna a defesa mais precisa. Cada auto passa a ser lido com a pergunta sobre a real dimensão do dano, e a insignificância se combina com a proporcionalidade, a prescrição e a prova técnica. A impugnação que separa lesão ínfima de dano relevante chega à autoridade com um argumento coerente e difícil de ignorar.

Cláudio Farenzena

Sobre o autor

Cláudio Farenzena

Cláudio Farenzena é advogado especialista em Direito Ambiental e do Agronegócio (OAB/SC 49.222 e OAB/MT 35.260/A), especialista em Direito Ambiental pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e professor do Direito Ambiental na Prática. Atua desde 2017 na defesa criminal ambiental, em crimes contra a fauna, a flora e o desmatamento.

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